Domingo, Novembro 18, 2007
Noite de quinta-feira e uma chuva fina cai em São Paulo. Asfalto molhado, luzes - e o eco das luzes que só a chuva fina faz na noite. Um friozinho dando ao metrô todo um ar europeu. Argentino, talvez.
No palco, amparada por um rapaz, surge uma pessoa pequenina. Cachecol vermelho no pescoço e tiara nos cabelos negros.
E, ainda em meio a aplausos e assobios, sua voz invade o local e é inevitável a emoção.
A comoção.
As lágrimas.
Ali, sentada, a pequena mulher canta como se contasse uma história de vida e de gente corajosa. De gente que viveu de um tudo. De gente que tem muita gente dentro. E canta como se estivesse sussurrando um segredo ao filhinho antes de ele dormir; simples assim. Canta como se houvesse paz no mundo: canta para haver paz no mundo. Canta com a voz da pessoa que rompeu todas as fronteiras e as barreiras contra as forças de uma ditadura que calou tantas gentes. E que cala ainda: as tais veias abertas da América Latina.
Canta para que o silêncio não maltrate ainda mais os corações livres.
E a sua música vai direto ao íntimo à essência ao âmago ao que quer que seja de mais profundo da gente.
Sim, Mercedes Sosa é ainda melhor ao vivo.
Não sei quantas e quantas e tantas coisas bonitas eu ainda vou viver. Mas esta já é, com toda certeza, uma das dez mais da minha vida.
(E eu nem vou falar das pessoas mal-educadas que gritavam pedidos, como se ela fosse uma vitrola com controle remoto. E da vergonha que senti por isso.)
(Nem vou falar que ela não cantou “Años”... porque é como se ele tivesse cantado.)
(Nem vou falar da carinha linda do meu amor me olhando enquanto eu chorava e sorria a noite toda... porque todas as fotos que a gente não tirou estão aqui, bem guardadas.)
posted by Neo |
15:27
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