Sexta-feira, Setembro 15, 2006
Ontem eu estava lendo a "Apresentação" do livrinho que veio com a Revista EntreLivros 17 (Relatórios do Prefeito de Palmeiras dos Índios ¿ Graciliano Ramos), escrita por Ricardo Filho, neto do próprio Graciliano. Lá, ele conta que a família toda sempre leu muito, é um texto muito bonito. Numa dada hora, ele conta que as crianças, nos tempos passados, eram obrigadas a ir dormir às 20:30hs, assim que a musiquinha dos cobertores Parayba (¿Já é hora de dormir...¿) começava a tocar. Na casa deles, as crianças iam para a cama nesse momento, mas poderiam ficar acordadas por mais uma hora, desde que lendo. Foi o que bastou para criar nele e no irmão o hábito ¿ e a delícia ¿ da leitura.
Eu não sou da época da tal musiquinha, e não tinha horário para ir dormir (o que explica as madrugadas insones de hoje em dia). Mas eu me lembrei de como eu me apaixonei pelas letras, livros, capas, bancas, livrarias.
Irmã temporã que sou, passei uma infância bem quieta no meu cantinho. Mas com quatro anos, comecei a sentir falta de companhias. Assim, incrivelmente, ainda mais analisando o relacionamento com cada irmã hoje em dia, eu ia justamente ficar perto da irmã mais velha, uma adolescente já preocupada com vestibular. Assim, sem mais nem menos, enquanto ela estudava, eu perguntava: ¿quando você terminar aí, se você quiser, a gente podia fazer alguma coisa¿. Ela concordava, eu continuava no meu mundinho, e de repente ela aparecia: ¿Pronto, vamos brincar¿. Num desses dias, ela resolveu me ensinar a ler. Foi exatamente neste ponto, ainda sem saber escrever, que aprendi a ler as letrinhas mágicas dos livros.
(Por isso, aliás, eu comecei a escrever à máquina. Ainda não sabia escrever à mão, mas passava horas na Olivetti da minha mãe, escrevendo e escrevendo, até que, altas horas, ela ¿ a mãe ¿ vinha brigar e me obrigar a parar por causa do barulho das teclas.)
Começamos com gibis. Ela, adolescente rebelde, obrigou meu pai a me dar um gibi por semana para que eu pudesse pegar gosto. Todo domingo, portanto, ela se sentava comigo e lia para mim, mas me ensinado a ler ao mesmo tempo. Ela gostava de Tio Patinhas, eu preferia Chico Bento, mas nunca disse isso a ela.
Pouco tempo depois, ela me apresentou a Monteiro Lobato ¿ Reinações de Narizinho, assim como o próprio Ricardo Filho.
Lemos ¿ ela leu, me ensinando ¿ toda a coleção. Aos cinco anos, ela me deu nas mãos o ¿A Fada que Tinha Idéias¿. Eu teria de ler para ela. Assim, toda noite, ela me punha na cama e esperava, pacientemente, que eu lesse as linhas todas deste livro fantástico. E esperava, e me corrigia, e não me apressava. Ela, a adolescente extremamente rebelde, teve comigo uma paciência inexplicável.
Depois, fomos a ¿O Sofá Estampado¿, ¿A Bolsa Amarela¿ e toda a coleção de Ligya Bojunga Nunes. E tantos outros autores. Aos oito anos, li meu primeiro Fernando Sabino. No mesmo ano, ele fez uma tarde de autógrafos na cidade. Ela já estava na faculdade. Eu, de braço quebrado, pedi um autógrafo no meu gesso. No livro, pedi que ele dedicasse o autógrafo a ela. Nunca conversamos sobre isso (ela é, até hoje, como aquela adolescente rebelde ¿ devemos ter muito medo dela e de suas reações), mas acho que foi o melhor presente que ela já recebeu.
Enfim. São tantas histórias. De cada uma das linhas lidas, são mil e uma lembranças. Mil e um acontecimentos. Mas senti saudade desses dias. Dessas noites. Dessa irmã que se desdobrou para me ensinar a ler.
Alguém, decididamente, ainda que tenhamos muitas ¿ e tantas ¿ diferenças, a quem devo muito. Devo quase tudo, aliás.
posted by Neo |
00:09
Comments:
|  |
|